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domingo, 12 de outubro de 2008

Predio 02

Para quem não compreende como "nascem" estes "contos", eu passo a explicar. Há dois anos foi lançado um desafio interessante em termos de escrita, que consistia num grupo de pessoas escrever estas coisas. O projecto não avançou e tenho, desde então, estes textos guardados. Assim tenho algo a colocar no blog, e, principalmente, partilho-os com vocês. Só espero que a leitura seja agradável...



Espreguiço-me. As melhores coisas num sábado de manhã é não ter de ouvir a campainha do despertador a ordenar o início do ritmo frenético de mais um dia de trabalho. Estico os braços e observo as manchas claras que os raios de sol provocam ao atravessarem o estore semi fechado. Quando comprar os cortinados não haverá tanta claridade, mas cada coisa a seu tempo. O dinheiro tem de ser distribuído pelas diferentes necessidades da casa. E os cortinados não são o mais prioritário. De qualquer maneira, já encontrei os adequados na loja de decoração junto à Conservatória.
No andar de cima oiço as rodas do carrinho do Mateus. Pobres pais! Há seis meses que não sabem o que é ter uma noite sossegada. E já é sorte quando a podem passar toda em casa, sem ser necessário acalmar o menino num passeio de jipe. Se algum dia tiver um filho com tamanha mania vai ter que se contentar com um Fiat Punto. Se quiser passear em bancos mais confortáveis terá de esperar pelos seus próprios rendimentos. Mas o melhor mesmo é que se habitue a dormir descansado na sua caminha.
E já estou a divagar... O melhor mesmo é deixar os cuidados parentais para a Rita e o Carlos, e aproveitar o meu sossego. Vou preparar o meu pequeno-almoço, mas antes tenho de ir à padaria buscar pãozinho fresco. O meu luxo de sábado de manhã.
Onze horas.
A Cristina ia com a Ticha à meia-maratona feminina. Depois vem-me apanhar para comprarmos a prenda para os pais do João e do Vasco. Hoje fazem 35 anos de casados. Devo dizer que as comemorações de aniversários de casamento são algo que me deixam fascinada. Principalmente as bodas de ouro. Como é possível fazer durar tanto uma relação? Tenho que começar a analisar os casos de sucesso e insucesso que conheço para tentar descobrir os segredos, se é que os há!
Um jipe Volvo a sair da garagem do prédio! A última vez que lá fui buscar o meu Punto (há duas semana?!) não vi aquele nível! Por isso é que o Mateus não se cala. Eu também não me calaria! E o vizinho do terceiro andar também vai entrar.
- Bom dia!
- Bom dia, como está? – pergunto, educadamente.
- Bem, obrigado. E pronto para aproveitar este primaveril sábado de Janeiro! Já leu o jornal de hoje?
- Não. Fui apenas à padaria. Ainda estou alheia à realidade do mundo actual.
Estamos à espera do elevador vermelho. É uma das poucas coisas que não gosto neste prédio. Eu sei que a nossa bandeira é maioritariamente cor de sangue e que esta é também a cor do clube que apoio, mas num elevador dá-me a sensação de catástrofe.
- Os combustíveis vão voltar a subir.
- Outra vez?
- A notícia de destaque é que houve um sismo na Península Arábica que atingiu algumas explorações petrolíferas. A consequência evidente é a subida do barril de petróleo. Bem faz a vizinha que dá pouco uso ao seu carro! Cheguei. Bom fim-de-semana!
- Obrigada, igualmente.
Eu ainda subo mais três andares. Os árabes preocupados em tirar pessoas doas escombros e eu preocupada com o que irei comprar para os meus “sogros”. Por muito que sinta a perda daquelas pessoas, a verdade é que não me toca na pele. Posso fazer uma transferência para ajudar as vítimas, mas não me afecta a vida. E o pensamento foge sempre para o ainda bem que ainda não foi desta que a nossa terra lhe deu para tremer. Têm ocorrido uns pequenos abalos o que, segundo os especialistas, é bom sinal pois liberta alguma da tensão interna, evitando a acumulação de energia.
Leite quente com café e pão fresco com manteiga! E raios de Sol a entrar pela janela e a baterem-me no corpo.
Pôr a máquina da loiça a trabalhar, arrumar o quarto, dar uma volta à roupa para ligar também a máquina da roupa. Segunda é dia da D.ª Rosa passar a ferro e tenho de ter a roupa lavada e seca para lhe deixar trabalho. E hoje não tenho de cozinhar! Ainda bem. Não me apetecia. Gosto de cozinhar quando estou inspirada. Considero que saber cozinhar é uma arte. Aqui não se trabalha com cores ou texturas mas com cheiros e paladares. E é preciso saber conciliá-los. Ou o prato não é muito apetitoso...
É nas alturas que ando em casa de um lado para o outro que compreendo a vantagem daquelas colunas na casa toda. Assim tinha sempre a música no mesmo volume e escusava de a ter tão alta na sala!
A pilha de trabalho que está na secretária! Mas estou de fim-de-semana. Não trabalho. Tenho de resistir. Vou tomar um duche rápido. É uma da tarde e a Cristina deve estar a chegar. O que havemos de comprar...
A galeria 21 tinha uns quadros alegres, cheios de cor que ficam bem numa casa de praia. E a sala da casa deles do Algarve está um bocado despida. Parece-me um bom começo... e fim também, a não ser que a outra tenha uma ideia melhor. Isto de namorarmos irmãos transforma-nos, de repente, em grandes amigas! Bem, a D.ª Lurdes do primeiro andar também acha que por vivermos no mesmo prédio somos todos uma grande família. Mas os bombons do Natal até que souberam muito bem!

1 comentário:

apricare disse...

"O projecto não avançou".mentira. o projecto está a avançar.vejo-o,sinto-o e li-o agora mesmo :)