Quem entra na Rua das Dálias e vira na primeira à esquerda, depara-se com um frondoso jardim onde os risos das crianças se fundem com o chilrear dos pássaros. Mistura rara de se ouvir por quem habita uma grande cidade, mas possível no Jardim dos Pessegueiros.
O mais estranho é que por mil voltas que tenha dado a este jardim, nunca encontrei qualquer árvore de fruto, principalmente pessegueiros… Já perguntei a um grupo de idosos que por lá costuma passar as tardes, sentado à volta de uma mesa de granito, baralhando e discutindo no intervalo das suecadas, a origem do nome daquele espaço, salvaguardado pelo esquecimento das imobiliárias. Explicaram-me que noutros tempos, quando em miúdos ocupavam as clareiras para chutarem bolas de farrapos, havia ali uma pequena feira de frutas e legumes onde havia uma família, os Pessegueiros, que vendiam o que colhiam no seu pomar dos subúrbios. E a fruta era tão doce que só uma simbiose entre árvores e abelhas podiam ter resultados tão divinais. Depois, os pais ficaram velhos para continuarem a tratar da quinta e os filhos seguiram outra vida. Nunca mais houve fruta tão doce, mas o local ficou miticamente ligado àquelas iguarias. A quinta, essa, era agora local de mais um shopping.
No centro do jardim existe um lago que com as suas gaivotas oferece um bom local de desgaste das mil e uma calorias que se arrecada na gelataria junto ao coreto. E que tentação o mostruário de dezenas de sabores – chocolate, nata, tiramisú, baunilha, morango, … - para quem passa no seu jogging matinal, ou eveningal, e decidiu repor o seu teor hídrico no bebedouro público, que oferece mais um local de duche do que um local de sede saciada.
É pela passagem junto ao canteiro das roseiras que eu sigo o meu caminho para casa. Normalmente, nunca consigo fazer esse trecho a direito pois são vários os ziguezagues a que sou obrigada para me desviar das catraias que saltam à corda, que jogam à macaca, ou tão só do magote de adolescentes que se forma em redor de uma fotografia de um ídolo holiodesco que aparece semi nú numa revista da especialidade, ou de uma mensagem idílica recebida num telemóvel de última geração.
Combinámos fazer a festa surpresa ao Vasco no meu apartamento. Daí serem cinco da tarde e já me poderem ver em grande marcha vinda do escritório. Amanhã vou ter que sair mais tarde ainda que o costume para compensar o luxo de hoje, mas tenho de ir ao mercado fazer umas últimas compras e começar a pôr tudo em ordem para o jantar. Antes, tenho de subir ao sexto andar do número vinte e dois da Rua dos Alegres. Os saltos das botas de cano alto já me cansam e não me apetece ir de tailleur para o meio das bancas. Além disso, trago na pasta o processo da audiência de amanhã e é demasiado volumoso para o andar a carregar por desporto. Vou vestir umas calças de ganga e uma camisola de lã e trocar o sobretudo pelo blusão de penas.
Saí do jardim. Agora espero que o semáforo fique verde para os peões. Não sou a única. Ao meu lado está um miúdo na sua bicicleta. As ciclovias ainda são raras mas pode ser que os funcionários da câmara reparem que já há uma boa circulação destes veículos de duas rodas e comecem a elaborar projectos onde integrem estas vias. Verde…
Subo a Calçada do Museu e viro na terceira à direita. Abro a mala e começo a procurar a chaves de casa. Arrependo-me de não as ter colocado na bolsa lateral em vez de as ter atirado para o magote de coisas que me acompanham religiosamente para todo o lado. Nem a barra de cereais falta. Ah, achei!
Que sensação fantástica a de rodar a chave na fechadura da nossa porta e ver-se abrir o nosso pequeno reino… Pouso as chaves no armário de entrada e sigo até ao roupeiro, onde penduro o casacão e enfio as pantufas. Passo pelo escritório para descarregar as bagagens e finalmente chego ao meu quarto. É só preparar o meu banho e começar a segunda fase do dia. A Ticha há-de chegar às 19,30h com o bolo de aniversário e meia hora depois os restantes convidados. Espero que o João chegue antes para cumprir o seu papel de anfitrião.
Ai!! O vinho!!! Esqueci-me de lhe pedir que fosse comprar o vinho!! Branco, claro, para acompanhar o salmão… E a água que estava tão quentinha! Raios!!
A Rosa deixou a casa num brinco! Vou pôr a toalha com os bordados de Viana e o serviço de grês. Suficientemente informal para o que se pretende, mas sem pôr de parte o requinte que um neurocirurgião exige. Só acho que não era necessário encomendar um bolo em forma de cérebro… Um bisturi feria menos susceptibilidades.
Pego novamente nas chaves. O porta-moedas já está no bolso. Aproveito a caminhada até ao mercado para ligar novamente ao João. Há pouco não me atendeu, mas ao ver a minha chamada podia ligar de volta! Afinal, o irmão é dele e bem que podia ajudar um bocadinho que fosse… Só quero que não falte o vinho.
De regresso. O peixe tem óptimo aspecto. A D.ª Carmo tem sempre um peixe seleccionado. Agora é começar a grelhar. Nesta cozinha com uma vista fantástica sobre o rio até dá vontade de cozinhar. Ainda por cima quando está a anoitecer e observa-se um jogo de cores nas luzes que já estão acesas. E nem os faróis dos carros são indiferentes a este quadro. O cheiro, diminuído pela campânula a funcionar, chama um copo de vinho. Gostava de possuir um pouco da sabedoria dos enólogos para distinguir um bom vinho de um soberbo. Assim, bebo aquele que gosto!
Estão a tocar. Deve ser a Ticha. Já arrumei o frigorífico e tenho espaço suficiente para o bolo, espero! A Rita e a Joana também ficaram de trazer sobremesas. Espero que a namorada que o Vasco nos vem apresentar também traga alguma coisa. E que não se assuste muito com a quantidade de gente. Afinal, eles vêem para um pequeno jantar de família…
Mas é bom que a Cristina – acho que é esse o nome dela – se habitue que o sexto andar do número vinte e dois da Rua dos Alegres é uma verdadeira caixinha de surpresas.
Afinal era o João. E traz o vinho. Óptimo! Está tudo em ordem. E ainda sobra tempo para namorar um bocadinho…
1 comentário:
se quiseres "deambular" um pouco..olha,pega no projecto!!!
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