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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Prédio 03

- Então, como vai a advogada de serviço do prédio?
A D.ª Lurdes! Ia tão compenetrada na lista das minhas tarefas de hoje que nem reparei que estava a passear a sua Lassie...
- Com pressa, para variar! Tenha um bom dia!
- Esta gente nova sempre a correr! Depois vêem-se pessoas da sua idade com AVC’s, paragens cardíacas... Têm de ter mais calma!
- Hei-de dizer isso ao meu patrão. Quem sabe não considere uma sobrecarga de trabalho e coloque mais funcionários! Ou então sempre me pode mandar para um lugar de criminalidade mais baixa para ver se está mais de acordo com as minhas exigências...
E segui caminho.
Devia ser mais parecida com a minha vizinha do lado. Não dar conversa a ninguém. Aliás, às vezes pergunto-me se ela não será muda!
O vizinho do terceiro andar. Hoje apanho todos!! E que estranho, a dirigir-se para o metro. Deve ter sido por causa da última subida dos preços da gasolina. Converteu-se aos transportes públicos. Com um bocado de sorte não me vê...
- Bom dia! Pela pressa deve ir atrasada.
- Obrigada por mo recordar!
- Mas o metro não vai andar mais depressa. Pode-se acalmar que acabou de partir um comboio e temos de esperar pelo próximo. Por isso podemos ir calmamente.
- Para quem anda pouco de metro até que está bem informado.
- Observo, apenas.
- Pensava que era economista.
- E sou! Não percebi...
- A observação é própria do espírito científico e não do capitalista.
- Está a querer afirmar que apenas os cientistas têm o dom supremo de saber observar o meio que os envolve e conhecê-lo.
- Não. Não o quis dizer. Mas neles é algo inato. Próprio. A observação e a curiosidade pelo que os rodeia é natural. Mas a observação é também desenvolvida noutras profissões. Eu, por exemplo, tenho de observar a reacção das testemunhas e dos meus clientes para me certificar do caminho a seguir na investigação ou na audiência.
- E eu?
- O vizinho tem de observar os índices económicos, estar a par da nossa realidade financeira e até social, q. b., mas a observação das pessoas, do meio natural que o rodeia não lhe é necessária.
- E como não me é necessária, segundo a vizinha, não desenvolvi o suficiente a minha capacidade de observar e tirar ilações do que vejo. Mas a verdade é que pudemos ir calmamente até ao patamar e ainda esperamos um pouco pelo metro.
- A capacidade de observar não é exclusiva. Até os cegos conseguem observar o que os rodeia, uma vez que retiram informações que lhes são necessárias, como o número de degraus de saída de uma qualquer estação de metro. Mas a observação tem de ser organizada, focada e intencional para retirarmos informações. E nisso os cientistas estão mais treinados. Ou qualquer outro investigador, claro.
- Então, dado que não sou profissional da observação, tenho desculpa para estar admirado pelo seu espírito filosófico. Achava-a mais corriqueira.
- Por alguma razão em particular?
- Não a vejo preocupada em estar informada pela actualidade. Nunca a vi com um jornal ou livro. Apenas com sacos de mercearia, roupa... ou os seus processos de trabalho. E também as pessoas que costumam frequentar a sua casa não me parecem muito intelectuais.
- Dado que a deslocação vertical no nosso prédio é, essencialmente, feita no elevador, como sabe que pessoas frequentam a minha casa? E com a frequência com que nos encontramos na entrada ou no elevador como pode tecer tal imagem de mim? Actualmente os prédios são locais anónimos. Cada indivíduo vive no seu andar e desloca-se no interior do prédio através do elevador, local fechado. Uns entram directamente com o carro na garagem, outros têm o seu acesso normal pela entrada. Raramente há cruzamentos.
- Estou a ver que não conhece a realidade do seu prédio! Das pessoas que vivem ao pé de si. Vive no seu canto e tudo o resto lhe passa à margem.
- Todo o resto não me diz respeito.
- Será? E se for vizinha de um homicida? Ou de um simples ladrão? Não lhe diz respeito? Ou se o seu vizinho debaixo é cardíaco e assusta-se com estrondos injustificados a meio da noite?
- Se o meu vizinho for homicida, não é da minha conta. Se matou alguém já pagou pelo seu crime e eu não tenho que o julgar. Se não pagou, então a polícia que o prenda. É essa a sua função. Como pode ver, não é da minha conta.
- Quando aparecer de pescoço cortado não me venha dizer que não é da sua conta!
- Está-me a obrigar a investigar o cadastro dos meus vizinhos?
- Não. Apenas a chamar a atenção para a importância de conhecer quem a rodeia. Eis a minha estação. E não se preocupe. Tanto quanto me é possível saber não temos nenhum perigo eminente nos habitantes do número vinte e dois da Rua dos Alegres.
- Obrigada pelo sossego que imprimiu ao resto do meu dia!
- Não tem de quê!